Emirados Árabes ditam regras da hotelaria moderna e obrigam setor a se reinventar

Dubai, Emirados Árabes / Foto de Aleksandar Pasaric / Pexels

Os Emirados Árabes Unidos não estão apenas investindo em tecnologia hoteleira. Estão, na prática, forçando o resto do mundo a correr atrás. Enquanto hotéis europeus e americanos ainda discutem orçamento para implementar check-in digital, Dubai já exige reconhecimento facial em todos os estabelecimentos cinco estrelas. A diferença não é só de velocidade. É de visão estratégica. A região do Golfo Pérsico entendeu que controlar o padrão tecnológico da hospitalidade significa controlar o futuro do turismo de luxo. E está funcionando. Viajantes corporativos e turistas de alto padrão já consideram a infraestrutura digital um critério básico, não um diferencial. Hotéis que não oferecem controle de ambiente por aplicativo ou acesso sem chave física começam a perder reservas. Simples assim.

Os números confirmam a pressão. Uma pesquisa da Hospitality Technology revelou que 68% dos viajantes internacionais desistem da reserva quando percebem que o hotel não tem tecnologia básica de autoatendimento. Não é capricho. É expectativa real. Dubai e Abu Dhabi aproveitaram essa mudança de comportamento e criaram regulamentações que obrigam a modernização até 2027. Grandes redes hoteleiras aplaudiram. Hotéis boutique e operadores independentes reclamaram dos custos. O debate expõe uma contradição incômoda: todo mundo quer experiências autênticas e personalizadas, mas ninguém abre mão do Wi-Fi ultrarrápido e do ar-condicionado controlado pelo celular. A hotelaria precisa resolver esse paradoxo, e rápido.

O turismo de bem-estar virou mina de ouro. Em 2025, o segmento movimentou 639 bilhões de dólares, segundo a Global Wellness Institute. Crescimento de 12% ao ano. Hotéis investem fortunas em spas, programas de detox, aulas de ioga e cardápios funcionais. Mas há um problema: ninguém sabe ao certo se isso funciona de verdade. Estudos acadêmicos questionam se essas experiências promovem saúde real ou apenas vendem uma fantasia cara de bem-estar. Os governos do Oriente Médio perceberam a brecha. Criaram certificações rigorosas que exigem profissionais qualificados e protocolos baseados em ciência, não em marketing. A jogada é inteligente. Enquanto alguns destinos tratam bem-estar como slogan, outros constroem reputação sólida no segmento. A diferença vai aparecer nas estatísticas de retorno dos turistas.

Luxo mudou de endereço. Não está mais na ostentação, mas na relevância pessoal. Hotéis coletam montanhas de dados para personalizar cada detalhe da estadia. O problema é que isso assusta. Casos recentes de vazamento de informações em grandes cadeias hoteleiras aumentaram a desconfiança. Viajantes querem personalização, mas não a qualquer custo. As residências de marca crescem justamente por oferecerem privacidade e autonomia. São hotéis que funcionam como apartamentos, com serviços sob demanda. O modelo atrai famílias, executivos em trabalho remoto e quem busca estadias longas. A sustentabilidade deixou de ser conversa de evento e virou lei. Vários países já multam hotéis que não cumprem metas de redução de emissões. O setor enfrenta um dilema real: precisa crescer para sobreviver economicamente, mas esse crescimento gera impactos ambientais que ameaçam sua própria existência. Não há resposta fácil. Só escolhas difíceis.

Fabiano Vidal

Técnico em Turismo, Turismólogo, Jornalista, Especialista em Marketing e Publicidade, autor do livro "Do Tambaú ao Garden - A História Moderna do Turismo da Paraíba", agraciado com Voto de Aplausos e a Medalha de Mérito Turístico 2008, ambos concedidos pela Assembléia Legislativa da Paraíba.

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