Arnaldo Junior Farias, ex-prefeito de Cabaceiras, analisa transformação de João Pessoa pelo Turismo


Neste artigo, Arnaldo Junior Farias, ex-prefeito do município de Cabaceiras e atualmente consultor nas áreas de Gestão de Políticas Públicas, Desenvolvimento Territorial e Turismo, credenciado no Sebrae Nacional, apresenta uma análise da transformação da capital paraibana de periférica para cidade de escolha que atrai migrantes de diferentes regiões, examinando como o crescimento populacional acelerado redesenha a dinâmica urbana e os desafios estruturais de planejamento, mobilidade, habitação e governança territorial, argumentando que a cidade chegou a um ponto de decisão crítico que definirá seu futuro desenvolvimento.

Para compreender a análise completa de Arnaldo Junior Farias sobre o futuro de João Pessoa, leia o artigo na íntegra.

João Pessoa no Limiar - Por Arnaldo Júnior Farias

Durante décadas, João Pessoa foi vista como uma capital periférica no cenário nacional. Uma cidade bonita, tranquila, acolhedora, mas fora do eixo dos grandes fluxos econômicos e populacionais do Brasil. Isso mudou.

Os dados do Censo 2022 do IBGE revelam uma virada histórica no mapa da migração interna brasileira. Estados como Santa Catarina, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná passaram a ser os grandes pólos de atração populacional. São Paulo e Rio de Janeiro, pela primeira vez em muitas décadas, perderam centralidade como destino natural da mobilidade social.

No Norte e Nordeste, um dado chama ainda mais atenção: a Paraíba foi o único estado com saldo migratório positivo. E isso não é obra do acaso. Esse crescimento é puxado de forma clara por João Pessoa — a capital que mais cresceu no Nordeste na última década.

João Pessoa entrou definitivamente no clube das cidades de escolha.

Uma cidade que passou a ser escolhida — não apenas herdada

Hoje, João Pessoa atrai pessoas que já consolidaram suas trajetórias profissionais e familiares. Aposentados, famílias em transição de vida, investidores imobiliários, profissionais em trabalho remoto e pessoas em busca de qualidade de vida passaram a enxergar a cidade como destino permanente de moradia.

A cidade reúne atributos que pesam muito mais do que o tamanho da metrópole: litoral urbano com praias balneáveis, qualidade ambiental, serviços estruturados, custo de vida mais competitivo, escala humana, população acolhedora e educada

João Pessoa é, ao mesmo tempo, grande o suficiente para oferecer oportunidades e pequena o suficiente para oferecer tranquilidade.

Esse novo perfil migratório — vindo de fora, com renda, expectativas e poder de escolha — passou a pressionar profundamente o território.

O turismo deixou de ser setor. Virou força que redesenha a cidade.

O turismo, que por décadas foi uma atividade relevante, tornou-se agora vetor estruturante da forma urbana.

Isso significa que ele passou a moldar: o mercado imobiliário, o custo de vida, a ocupação do solo, o padrão de serviços, a mobilidade e a própria geografia social da cidade

O Polo Turístico Cabo Branco é o símbolo mais evidente dessa virada.

Um complexo turístico de escala bilionária, com resorts, hotéis de grandes bandeiras, parques temáticos e estruturas de entretenimento, projetado para inserir João Pessoa no circuito nacional e internacional do turismo de alto padrão.

É, ao mesmo tempo, oportunidade e alerta.

Experiências semelhantes em várias regiões do Brasil mostram que grandes resorts frequentemente funcionam como ilhas econômicas, com baixa integração à economia urbana local, pouca absorção de mão de obra qualificada da cidade e reduzida circulação de renda no território.

O risco é claro: criar enclaves turísticos que concentram valor sem irradiar desenvolvimento.

A metrópole silenciosa que já existe — sem projeto

João Pessoa já não é apenas João Pessoa. Cabedelo, Bayeux, Santa Rita, Conde, Lucena e Cruz do Espírito Santo,  tornaram-se a válvula de escape da capital. É para essas cidades que migram as famílias pressionadas pelo aumento dos aluguéis e do valor dos imóveis.

Forma-se, silenciosamente, uma região metropolitana com quase 1,5 milhão de habitantes, sem governança metropolitana efetiva, sem planejamento integrado e sem projeto urbano comum.

A conurbação acontece — mas sem comando.

A infraestrutura de ontem para a cidade de amanhã.

A BR-230 cortando João Pessoa é o símbolo mais visível da ausência de uma malha estrutural moderna de mobilidade urbana e metropolitana. Uma rodovia federal, pensada para o tráfego de longa distância e cargas pesadas, tornou-se eixo urbano cotidiano de deslocamento.

Com basicamente dois viadutos fazendo a ligação entre a cidade antiga e a cidade das praias, o resultado é previsível: congestionamentos crescentes, aumento do tempo de deslocamento, perda de qualidade de vida e desgaste da cidade que justamente cresceu por ser tranquila.

João Pessoa virou outra cidade — sem que sua espinha dorsal urbana tivesse sido redesenhada.

O paradoxo: o crescimento que ameaça o próprio diferencial

João Pessoa cresce porque é tranquila, bonita, humana e funcional. Mas cresce de forma que começa a ameaçar exatamente esses atributos.

Sem intervenção estratégica, a cidade corre o risco de repetir trajetórias já conhecidas de Recife, Salvador, Fortaleza e Natal: espraiamento urbano, gentrificação acelerada, perda de identidade, conflitos silenciosos e colapso progressivo da mobilidade e da qualidade de vida.

João Pessoa chegou ao seu ponto de decisão

A cidade não está mais no tempo das escolhas espontâneas. Ela entrou no tempo das decisões estruturais.

Ou João Pessoa assume um novo ciclo de: planejamento metropolitano integrado, redesenho estrutural da mobilidade, política ativa de habitação, regulação do adensamento, governança territorial compartilhada, ou entrará no ciclo da perda de seu próprio diferencial.

O crescimento é uma oportunidade rara. Mas só vira desenvolvimento quando é planejado.

João Pessoa não é mais apenas uma cidade em crescimento. Ela é, agora, uma cidade em decisão.

Arnaldo Junior Farias é consultor nas áreas de Gestão de Políticas Públicas, Desenvolvimento Territorial e Turismo. Credenciado no Sebrae Nacional. Ex-Prefeito do município de Cabaceiras PB. Ganhador do Prêmio Nacional Prefeito Empreendedor da Região Nordeste e do Prêmio Gestão e Cidadania da FGV/BNDES - 2004 como uma das cinco melhores experiências de Gestão Inovadora do País.

Fabiano Vidal

Técnico em Turismo, Turismólogo, Jornalista, Especialista em Marketing e Publicidade, autor do livro "Do Tambaú ao Garden - A História Moderna do Turismo da Paraíba", agraciado com Voto de Aplausos e a Medalha de Mérito Turístico 2008, ambos concedidos pela Assembléia Legislativa da Paraíba.

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